1. EDITORIAL 10.4.13

"QUEM QUER TOMATE?"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial

Vivandeiras do mercado financeiro choram o lucro magro por conta do juro baixo. Nas ltimas semanas fizeram uma presso sem igual para que a autoridade monetria revise para cima a taxa, adotando novo patamar, mais confortvel e rentvel. Para elas. O argumento por trs do pedido no  uma lorota: o aumento consistente da inflao no teto da banda fixada pelo Banco Central (perto dos 6,5%, anualizada). O vilo inflacionrio est identificado: o tomate. Como nos tempos sombrios e de informaes distorcidas da ditadura o chuchu levou a culpa, nada mais natural que escolher agora outra hortalia da cesta bsica para espremer. O tomate, decerto, abusou da conta. De fevereiro de 2012 a fevereiro ltimo, seu preo quase dobrou. Mas h uma falcia no alerta dos que acreditam ser esse fenmeno um exemplo generalizado de disparada dos preos. O tomate da colheita recente foi dizimado pelas chuvas. Faltou na mesa do consumidor ou est sendo regateado a valores exorbitantes. Nas nuvens, pelo desencontro entre oferta e demanda. O problema  sazonal e o apontam como estrutural. Com a variao tomateira, os alarmistas anunciaram at uma nova onda, chamada de inflao dos alimentos, que iria afogar a reao da economia. No passa, na verdade, de uma marola. A ciranda inflacionria vem girando num espao pequeno e previsvel. Tende  e esses mesmos senhores do capital sabem  a perder fora logo. O consumidor brasileiro, por sua vez, est escolado: o tomate ficou caro, troca de legume. E assim em cadeia: com carne, roupa, etc. O que a tropa de especuladores precisa entender  que, no atual ambiente do Pas, no h mais lugar para a propaganda enganosa sobre os riscos de hiperinflao. Muito menos para alegar que houve imprudncia ou descaso das autoridades com o assunto. A prpria presidenta Dilma tratou de descartar a hiptese e mandou o seu vacilante emissrio do BC, Alexandre Tombini, a pblico reforar o compromisso do governo com a estabilidade. O problema  como pensa Tombini, diferente do que quer Dilma. Ele compartilha a equivocada viso de mercado de que s os juros salvam e, dessa forma, pode colocar tudo a perder na bem-sucedida trajetria de queda das taxas a nveis civilizados. Seria um retrocesso desnecessrio. Afinal, quem nunca acreditou em variao de preos como uma realidade inevitvel que atire o primeiro tomate.

